9
jan

Consciência situacional, uma necessidade

Consciência situacional, uma necessidade

Artigo escrito por Tarcísio Takashi Muta, presidente da Fundação Ezute, para a Revista Tecnologia & Defesa (nº 155)

Um dos principais desafios para o Estado brasileiro tem sido responder às ações do crime organizado, e em alguns casos dos criminosos comuns. Essa vulnerabilidade é percebida em razão da adoção de abordagens isoladas oferecidas como solução, impedindo avanços sustentáveis na questão, que hoje escala o nível da segurança pública e alcança um patamar mais elevado, que tange a segurança nacional envolvendo diretamente as Forças Armadas.

Há diversos estudos que examinam as razões que levaram a esta situação, e a cada dia fica mais evidente a necessidade de integração de sistemas de inteligência em Segurança e de Defesa no país, em prol de uma consciência situacional aumentada, capaz de resultar em maior êxito nas atividades singulares, conjuntas ou até mesmo combinadas, estas últimas envolvendo pares internacionais.

Conduzida em várias esferas de governo, a estruturação de um Sistema de Sistemas de Segurança e Defesa deve atender às especificidades de cada organização para cumprimento de suas respectivas missões, permitindo a análise dos dados, criação de informações, formulação de diagnóstico conjuntural de diversos cenários e, por fim, o emprego de conhecimento de forma prospectiva, político-estratégica, operacional e tática, nos campos nacional e internacional, de forma a agilizar a tomada de decisão, a análise de inteligência e o planejamento de curto, médio e longo prazo, sem restringir, porém, as operações singulares dos órgãos governamentais e das Forças Armadas.

As ações criminosas têm várias origens dentro do território nacional enquanto outras provêm de países vizinhos, de onde drogas e armamento cruzam a fronteira com o Brasil, ultrapassando a capacidade das ações policiais, sejam elas estaduais ou federais. Desse modo, a criminalidade, antes isolada em área e atuação, tornou-se transnacional e aparelhada, valendo-se de estruturas que são centralizadas no comando, mas descentralizadas na ação e utilização de insumos que chegam ao país através de nossas fronteiras.

Para maximizar as ações contra crimes transnacionais no âmbito da Segurança e Defesa é preciso introduzir modelos de informação e gestão de crise que se valham de uso intensivo de tecnologia, garantindo a integração de conhecimento na proteção das fronteiras, do espaço aéreo e cibernético, dando especial atenção para operações em ambiente interagências, pedra angular de um novo cenário onde os entes da Segurança e da Defesa interoperam para se antecipar ao crime, compartilhando metas, racionalizando esforços, aumentando suas capacidades e entregando resultados mais efetivos à sociedade com relação à ocorrência de ilícitos como crimes de tráfico transnacional de drogas e de armas de fogo, contrabando de veículos, medicamentos e cigarros, evasão de divisas, desmatamento, tráfico de pessoas, e outros crimes sujeitos à investigação como homicídios, incêndios criminosos, roubos, sequestros, vandalismo, etc.

O processo de integração sistêmica entre Segurança e Defesa deve explorar a ação de interoperar um conjunto de sistemas que, de forma construtiva, sincronizada e no timing necessário, transformem seus dados isolados em informações que contribuam para a criação da consciência situacional necessária para planejar e coordenar ações de combate a estrutura de crime que atenta contra a sociedade brasileira.

Este Sistema de Sistemas deve ser gerenciado e mantido por elemento central para orquestrar e potencializar a obtenção dos resultados decorrentes desta interoperabilidade, um Núcleo de Informações de Segurança e de Defesa capaz de responder eficazmente à adoção de uma política pública integrada para essas atividades.

O compartilhamento de informações providas por diversos sistemas já existentes, em desenvolvimento, ou ainda em processo de concepção, permite que seja elaborada, em cada nível, a consciência situacional integrada ao teatro de operações. Desta forma, uma melhor linha de ação poderá ser elaborada desde o planejamento, passando pela tomada de decisão e culminando com sua execução em tempo hábil, em resposta efetiva aos problemas de Segurança que se estendem à Defesa.

Proporcionar a unidade de esforços é, sem dúvida, o empreendimento cooperativo mais relevante da atualidade, no que concerne ao gerenciamento de crises e otimização do emprego de recursos, sejam eles humanos, logísticos ou financeiros. Essa condição envolve, além das forças de Segurança e das Forças Armadas, grande número de órgãos e entidades da administração pública. Em algumas situações, organizações não governamentais, empresas privadas e organismos internacionais poderão ser incluídos nesse modelo, como partes interessadas e até mesmo como atuantes. A Defesa situa-se como um dos vetores principais de referência, dentro da linha de ação adotada, para a prevenção de ameaças, reação a hostilidades ou para gerenciamento de crises, junto de outras estruturas de poder do Estado e da sociedade.

Consciência situacional é um conceito chave em qualquer domínio no qual o aumento da complexidade no teatro de operações pode afetar adversamente a tomada de decisão. Ter um conhecimento da situação completa, precisa e atual e poder atuar de forma conjunta com racionalização de recursos e efetividade nos resultados são condições absolutamente necessárias para o enfrentamento dos desafios atuais no que passa a ser um único domínio, o de Segurança e Defesa do país.

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6
nov

O desafio da governança da defesa cibernética

O DESAFIO DA GOVERNANÇA DA DEFESA CIBERNÉTICA

Artigo de Tarcísio Takashi Muta para a Revista Tecnologia & Defesa

Em um cenário global caracterizado por ameaças externas difusas e assimétricas, baseadas em tecnologias com ciclos de vida muito rápidos, sem controle do Estado e sem vínculos nacionais, a Defesa Cibernética tornou-se o dispositivo fundamental para atender à preservação dos objetivos e interesses dos países. No Brasil, a Estratégia Nacional de Defesa (END) identifica e estabelece parâmetros para essa atividade, juntamente com a Defesa Nuclear e a Espacial, e a coloca sob a coordenação do Exército Brasileiro, em uma concepção sistêmica, e que requer métodos, procedimentos e características que lhe são peculiares.

O espaço cibernético é um ambiente em permanente mudança, que tem a tecnologia como base, formado por uma complexa rede de agentes, equipamentos e locais, cujo aumento significativo de sistemas e redes de informação e comunicação é estimulado a partir de facilidades crescentes de acesso à Internet. Com isso, proliferam também as ameaças e as vulnerabilidades, justificando a urgência do fortalecimento de uma cultura de segurança cibernética e de uma atuação estratégica que considere as suas diversas dimensões, tanto em termos das tecnologias utilizadas, quanto os aspectos sociais e seu inter-relacionamento. Em suma, é fundamental a visão sistêmica.

Do ponto de vista da defesa, esse novo teatro de operações e de conflitos vem se somar às zonas terrestres, marítimas e aeroespaciais, mas seu conjunto de ações é transversal a todos esses domínios, no que se refere à proteção segura dos sistemas de informação e de transmissão de dados para produção de conhecimento de inteligência. Atualmente, são inúmeros e variados os meios e as ferramentas que compõem o espaço cibernético, envolvendo redes de comunicação, aplicativos, tecnologias de informação, inteligência artificial e a chamada internet das coisas, que abrange de celulares a relógios, óculos, e muitos dispositivos que ainda iremos conhecer. A própria automação da indústria 4.0 e num contexto mais amplo o desenvolvimento das cidades inteligentes, se dá com base na utilização desses meios.

São notórias as dificuldades para tomadas de decisões relacionadas ao gerenciamento da segurança cibernética, especialmente pelos grandes volumes de dados envolvidos. Isso exige a implantação de controles, a atualização sistemática das práticas e procedimentos adotados para os sistemas de informação, desde o estabelecimento de requisitos direcionadores até uma gestão de segurança que permita avaliar riscos e capacidade de resposta diante de eventuais incidentes.

A palavra chave para o êxito do enfrentamento dessas ameaças é resiliência. Não basta apenas estar apto a se defender, mas sim poder principalmente antecipar, e também prover uma rápida reação, com capacidade de mudança e adaptação à nova realidade no caso de um ataque. Nesse novo teatro de operações é preciso otimizar ao máximo a capacidade de manter as infraestruturas críticas operando sob condições de ataque, ou de restabelecê-las após uma ação adversa, sem chances de quebra. As fronteiras nesse novo ambiente não são tão claras quanto as dos domínios clássicos. O ambiente cibernético oferece mais condições para que um indivíduo, não necessariamente vinculado a um Estado, possa ameaçar ou provocar danos, em termos nacionais ou mesmo globais, impedindo a disponibilidade, integridade, confidencialidade e autenticidade de dados e informações, e afetando sistemas vitais para o funcionamento das sociedades.

É um novo ambiente, totalmente assimétrico, não é mais uma questão de país contra país. Nesse novo espaço cibernético, como não há mais fronteiras, os controles ficam fragilizados, o que exige outro paradigma, outra forma de se defender. A inteligência artificial permite que os dispositivos estejam vinculados à internet e rapidamente se reconfigurem, obrigando quem tem a responsabilidade pela defesa cibernética a desenvolver a capacidade de aprender e reaprender rapidamente com as situações.

O soldado cibernético, por sua vez, necessitará formação complementar específica e com visão sistêmica. Será um profissional altamente especializado, que terá como desafio monitorar essas novas fronteiras assimétricas em constante mutação, identificar ameaças e configurar respostas que possam impedir a sua concretização, neutraliza-las e se necessário contra-atacar.

Para tanto serão necessárias mudanças de comportamento e até alterações culturais, para definir mais prontamente o tipo de capacitação e conhecimento mais adequados para permitir que esse novo soldado possa atuar na plenitude da sua eficiência e eficácia. Será importante também definir qual será a sua missão e pensar na estrutura estratégica necessária para otimizar sua atuação nesse novo contexto.

O desafio, portanto, é estratégico, tático e operacional. Será fundamental harmonizar as condições de compartilhamento de informações com a proteção, segurança, confidencialidade e privacidade, e contextualizar esse novo teatro de operações como um domínio da defesa no qual os agentes públicos e privados se organizam para oferecer respostas rápidas. E, na visão dos especialistas, serão mais bem sucedidas em dar respostas a esse novo tipo de desafio as sociedades que puderem se organizar através de uma modelagem institucional da sua atuação em termos da governança da defesa cibernética.

Como ressalta a doutrina de defesa cibernética do Ministério da Defesa, esse novo cenário estratégico exige a atuação integrada de vários órgãos, sejam civis ou militares, cada um com atribuições específicas, mas com um modelo de atuação em um ambiente interagências. Nesse sentido, no âmbito da responsabilidade e sob a coordenação conferida pela END ao Exército Brasileiro, seria recomendável o estabelecimento de uma estrutura de alto nível na administração pública, que seja responsável por interagir de forma mais livre e direta com todos os interessados.

Um organismo que funcione como um grande facilitador em um ambiente colaborativo, com procedimentos pré-estabelecidos e informações que estejam disponíveis para todos os entes envolvidos, sejam governamentais, sejam organismos da sociedade, comprometidos há mais tempo com as novas tecnologias que balizam esse domínio e, portanto, capacitados a atuar no sentido de impedir que sistemas estratégicos vitais sejam afetados por uma ameaça ou um ataque direcionado a um ou mais desses agentes. E que em sua configuração propague, também, informações para a sociedade, permitindo que o maior número possível de cidadãos tenha informações sobre as questões que envolvem a segurança do sistema a partir de práticas seguras na circulação de dados pessoais na internet.

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5
jul

Inovação, Vale da Morte e o Elo Perdido

Inovação, Vale da Morte e o Elo Perdido

Artigo de Eduardo Marson para a Revista Tecnologia & Defesa

A inovação, seja ela qual tipo for, incremental ou disruptiva, é por definição, a chegada ao mercado de um novo produto, modelo de negócio ou serviço, proporcionando benefícios à sociedade. Nesse processo, o caminho a ser percorrido requer esforço, persistência e foco, de forma que não existe inovação sem uma dose maior ou menor de risco. Independentemente da intensidade tecnológica, o desenvolvimento da novidade passa por diversos estágios, desde a sua ideação até a sua materialização como produto aplicado. Esses estágios usualmente são denominados de níveis de maturidade, lembrando que aqui estou sempre me referindo à inovação de forma ampla e, por isso, deixo de lado a expressão tecnológica.

Uma forma de avaliar o estágio em que um produto se encontra e que é bastante reconhecida mundialmente é o Nível de Maturidade Tecnológica ou Technology Readiness Level – TRL para os íntimos. Essa forma de avaliação foi proposta pelo pesquisador da NASA Stan Sadin, em 1974, e consiste em avaliar de forma objetiva o estágio de desenvolvimento de um produto. Inicialmente proposto com 7 níveis de maturidade e mais tarde ampliado para comportar melhor todas as etapas de um desenvolvimento, o TRL é utilizado mundialmente como uma referência. No Brasil, diversos órgãos de governo, em especial as Forças Armadas, vêm utilizando o TRL como uma medida da prontidão de uma determinada tecnologia ou produto para sua aplicação prática, assim como para avaliar o nível de risco de seu desenvolvimento. Em princípio, quanto mais madura ou pronta uma tecnologia, tanto menor o seu risco em aplicá-la em uma operação real.

A figura ilustra os 9 níveis de TRL considerados atualmente e a sua associação aos diversos estágios de desenvolvimento de um produto. De uma forma bastante simplificada, se imaginarmos o desenvolvimento de um produto, cada um dos TRLs a partir do primeiro nível corresponderia a: 1-Pesquisa dos princípios básicos; 2-Formulação do conceito da tecnologia ou aplicação possível; 3- Desenvolvimento de prova de conceito experimental ou teórica; 4- Validação em ambiente de laboratório; 5- Validação em ambiente próximo ao real; 6- Demonstração de protótipo em ambiente próximo ao real; 7- Demonstração de protótipo em ambiente operacional; 8- Qualificação do produto por meio de testes e demonstração; 9- Operação do produto em ambiente operacional.

Em termos de desenvolvimento tecnológico, os TRLs podem ser agrupados pelas diversas fases de um projeto que envolvem: a Pesquisa Básica (TRL1-2), o Estudo de Viabilidade (TRL2-3), o Desenvolvimento da Tecnologia (TRL3-5), a Demonstração da Tecnologia (TRL5-6), o Desenvolvimento do Sistema (TRL6-8) e a Entrada em Operação (TRL8-9). Não irei entrar nos detalhes dessa divisão e nem nos critérios que levam a essa superposição.

Ao observarmos essa sequência de estágios ou níveis de desenvolvimento, surge uma constatação muito interessante. Geralmente, os níveis de TRL de 1 até 3 são realizados em instituições de pesquisa, tipicamente a Academia. Os níveis de TRL de 7 até 9 correspondem ao espaço de atuação das Empresas, que se servem da tecnologia e a transformam em produtos acabados e os lançam no mercado. Nesse ponto, o leitor se perguntará: e os demais níveis? Pois bem, esse é o denominado Vale da Morte da Inovação. É justamente nesses estágios em que ocorre o naufrágio de muitos produtos, ou seja, a transformação do conhecimento em produto falha. E aí surge outra questão: por quê?

Existem várias argumentações e teorias para responder a essa questão. Mas, ao contrário de argumentos que tomam em consideração o investimento para vencer cada uma dessas etapas, gostaria de me concentrar em um aspecto muito interessante. O denominado Vale da Morte é um momento de transição, não só em termos de tecnologia, mas principalmente de um mundo para outro. Nos primeiros estágios do desenvolvimento, o foco em adquirir e desvendar o conhecimento é o mote principal. Por outro lado, nos estágios finais, o foco no produto resultante, seu custo benefício, estabilidade, dentre outros, é a meta. Pois bem, temos aqui o que chamamos de transição do conhecimento da Academia para a Empresa. São dois mundos diferentes, cada qual com os seus valores, objetivos e tempos próprios – e muitas vezes conflitantes.

Aqui estamos diante de um verdadeiro choque de culturas. Discussões sem fim e, muitas vezes, sem começo. Divergências e expectativas distintas. Pressões e timing, além de outras questões, tornam essa interação muito complicada e, não raro, infrutífera. É como se faltasse um elo, o diplomata que dialogue bem com ambas as partes e que tenha a capacidade de realizar esse estágio de transição do conhecimento para o mundo do mercado.

Recentemente, com a publicação do Marco de Ciência e Tecnologia, que imprimiu alterações e avanços significativos na legislação que orienta o processo inovativo no Brasil, as instituições privadas dedicadas à ciência, tecnologia e inovação – ICTs privadas – foram reconhecidas como atores relevantes no Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Ainda sob orientação deste mesmo Marco, a relação entre poder público, Academia, ICTs privadas e Empresas é incentivada e facilitada, para dar mais agilidade e segurança jurídica e aumentar as chances para que o Vale da Morte da Inovação seja superado.

É nesse ponto que instituições isentas de interesses e que tenham compromisso com o desenvolvimento nacional podem desempenhar um papel relevante e fundamental. A capacidade de capturar necessidades, traduzi-las em demandas para quem faz a pesquisa básica e também ter a capacidade de transicionar o conhecimento para quem desempenha o verdadeiro jogo do mercado. Tais instituições atuam como eixo da hélice que reúne os atores da Inovação. São os chamados Honest Brokers.

Então, talvez essas instituições – livres de interesses comerciais, com agilidade e visão de setor privado e capacidade intelectual para dialogar e entender o conhecimento produzido na academia e atuar junto ao Governo e o Setor Empresarial – sejam o Elo Perdido da Inovação.

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20
abr

Tecnologia e gestão para uma segurança pública eficaz

Tecnologia e gestão para uma segurança pública eficaz

Artigo escrito pelo presidente da Fundação Ezute, Eduardo Marson Ferreira, para a Revista Tecnologia & Defesa (Nº 152/2018)

Pesquisa divulgada no início de 2018 pela Diretoria de Políticas e Estratégia da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que a segurança pública é a quarta maior preocupação dos brasileiros, depois do desemprego, da corrupção e da saúde. Mas o tema da segurança pública nunca esteve tão presente nos debates da sociedade depois da intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro, que colocou a estrutura de segurança pública fluminense sob a responsabilidade de um interventor militar.

Problemas como o aumento das taxas de criminalidade e da violência, a ineficiência preventiva das instituições policiais, a superpopulação, rebeliões e fugas nos presídios, e as dificuldades administrativas da justiça criminal, entre tantos outros, contribuem para o crescimento da sensação de insegurança da população, sobretudo nos grandes centros urbanos, tornando a questão da segurança pública o principal desafio para os governantes de todos os estados brasileiros.

Sobre esse tema a Fundação Ezute, cuja vocação é apoiar os agentes públicos a pensar e estruturar os problemas de interesse nacional, desenvolveu a visão conceitual de que é possível promover a construção de projetos estruturantes de base tecnológica para a segurança pública nos estados, permitindo fortalecer e ampliar as melhores práticas de gestão de planejamento e operação de controle da criminalidade, tendo como atributos força institucional e base desburocratizante, racionalidade de recursos e compromisso com a modernização pública e com o bem estar social.

O ponto central desses projetos estruturantes é o fortalecimento do Estado e sua responsabilidade institucional de liderar e articular as ações de controle da criminalidade. Também é premissa básica a adoção de princípios modernos de gestão pública e comprometimento com a transparência, racionalização, qualificação e eficiência, de tal forma que a estrutura de segurança possa agir de forma preventiva (controle da criminalidade) e não apenas reativa (combate à criminalidade).

Há um perceptível desequilíbrio de forças entre a criminalidade e a estrutura de segurança pública dos estados. Os criminosos estão na frente, pois se mostram mais organizados, capacitados (a ponto de receberem treinamento) e melhor equipados que os policiais. É evidente que os estados só vão conseguir virar esse jogo se tomarem uma série de medidas.

Recomenda-se, por exemplo, viabilizar um ambiente de inteligência institucional, com base no uso intensivo de conhecimento, a ser integrado e compartilhado entre os diversos tomadores de decisão responsáveis pelo controle da criminalidade, para produzir informações e integrar, compartilhar e gerar conhecimento, maximizando a tomada de decisão e posicionando a estrutura de segurança como um poder institucional, um norteador de forças e um indutor da eficiência.

Como poder institucional, caberá à estrutura de segurança do estado desenvolver um pensamento visionário, orientado para intervenções de qualidade e impacto, produzindo inteligência para a tomada de decisão de alta performance, e buscando resultados de longo prazo conectados com as expectativas da sociedade.

Será preciso estabelecer diretrizes e pactuação dos atores envolvidos, viabilizando um ambiente colaborativo e de compartilhamento de dados, garantindo sua autonomia e independência, e avaliando cenários futuros para atuação na normalidade.

Para obter eficiência, será importante produzir a consciência situacional com base em um banco de dados único, orientando a conjugação de esforços e a cooperação e propondo evoluções do arcabouço legal aderentes às ações implementadas, além de buscar de forma permanente a capacitação dos servidores envolvidos, visando ampliar a sua profissionalização.

Algumas premissas fundamentais devem ser consideradas para o êxito de um projeto estruturante de segurança pública com base tecnológica. Como o alinhamento institucional dos governos estaduais junto às políticas do governo federal, a maximização de protocolos cooperativos entre os diferentes órgãos atuantes, otimizando as ações integradas e a evolução dos sistemas tecnológicos existentes, com adoção de práticas voltadas para ganhos de escala, padronização e ações de off set, e o aprimoramento da legislação com vistas à adequação das ações a serem implementadas.

Nesse sentido, é aconselhável a adoção de modelos de sustentabilidade, a exemplo da implementação de modelos de Parcerias Público Privadas (PPPs) aplicáveis em alguns setores de interesse privado, tais como a gestão das atividades prisionais, o atendimento a infraestruturas urbanas críticas, como implantação de redes de iluminação pública em áreas de alta fragilidade social sujeitas à ação da criminalidade, o compartilhamento integrado da rede privada de câmaras de monitoramento com os Centros de Comando e Controle dos organismos de segurança dos estados, e a ampliação da conectividade urbana, com implantação de cabeamento óptico integrando diferentes serviços de fundo social, ampliando desse modo a inclusão dos cidadãos.

Acima de tudo, será preciso considerar a advertência feita pelo comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, em entrevista recente à revista Piauí, referindo-se ao Rio de Janeiro. Segundo o experiente militar, os desafios enfrentados pelos estados “ultrapassam o escopo de segurança pública, alcançando aspectos financeiros, psicossociais, de gestão e comportamentais”, que revelam “a necessidade de uma honesta e efetiva ação integrada dos poderes federais, estaduais e municipais”.

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26
jan

Fundação Ezute – Gerando conhecimento para o Brasil

Fundação Ezute – Gerando conhecimento para o Brasil

O presidente da Fundação Ezute, Eduardo Marson Ferreira, concedeu entrevista à Revista Tecnologia & Defesa, na qual aborda as características da organização, sua atuação, projetos em andamento e cenário geral brasileiro.

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22
set

Uma cândida homenagem – artigo de Eduardo Marson Ferreira

Uma cândida homenagem

Neste artigo, Eduardo Marson Ferreira presta homenagem a Jairo Cândido, empresário fundador do grupo Inbra e diretor do Departamento da Indústria de Defesa da Fiesp (Comdefesa), que faleceu no dia 18 de julho de 2017.

 

Algumas pessoas passam pela vida da gente e deixam marcas indeléveis. Impactam nossa maneira de pensar, de agir e nos obrigam a refl etir sobre o sentido das coisas e dos fatos.

Um desses personagens ímpares, meu querido amigo Jairo Cândido, nos deixou no último dia 18 de julho, após perecer do jeito que viveu: lutando! Não poderia ser diferente com aquele que nos últimos tempos personifi cou a luta pela Base Industrial de Defesa e Segurança forte e por um Brasil mais soberano, luta difícil e muitas vezes inglória.

Conheci Jairo quando cheguei ao Grupo EADS (hoje Airbus) como CEO no Brasil, em 2003. Naquela época, sua defesa apaixonada pela adoção, pelo Brasil, de um “Buy Brazilian Act” nos moldes do que é praticado em países como os Estados Unidos ou a França, nos colocava em lados opostos. Eu, dirigente de uma empresa multinacional do setor, ele um empresário nacional batalhando por um lugar ao sol. Nunca vou esquecer um café da manhã organizado por outro saudoso empresário, Fernando Botelho, em homenagem à IMBEL… Eu estava na mesa de outro querido parceiro, general Amarante, quando Jairo chegou e disse ao general: “a nossa salvação é o “Buy Brazilian”. Do alto de meus 40 anos de idade, minha reação mental foi algo como “o que esse cara tá dizendo! Preciso conversar com ele e explicar umas coisas! ”. Arrogância da juventude…

Um almoço no restaurante Ecco, na rua Amaury, em São Paulo, inaugurou uma amizade muito forte e o respeito profi ssional entre nós. Eu comecei a entender o que é ser empresário no Brasil, ser um sobrevivente dentro de um sistema hostil ao empreendedorismo, que não ajuda ou, via de regra, atrapalha. Compreendi a necessidade de equiparar o sistema de compras de defesa no Brasil àquilo que já é praticado fora, nem mais nem menos. Enfim, entendi que aqueles cabelos brancos não estavam ali por acaso, foram forjados a ferro e fogo nas trincheiras de lutas da indústria. Em compensação, ele também abriu uma concessão para reconhecer a contribuição do capital estrangeiro à criação de empregos e geração de parcerias com a indústria nacional, especialmente da parte das empresas multinacionais com longevas e sérias implantações no País.

Falei em trincheira de lutas da indústria. Através de sua militância na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), Jairo Cândido veio a apoiar o então candidato oposicionista à presidência, Paulo Skaf. Em troca, não pediu nada para si, apenas pediu que a indústria de defesa tivesse um maior protagonismo naquela casa. Com a criação de um comitê, depois alçado a Departamento, nasceu o COMDEFESA e com ele Jairo e Paulo Skaf erigiram aquela que seria a mais influente trincheira de defesa dos interesses do setor, que logo foi copiado por outras federações de indústrias.

Do COMDEFESA emanaram ideias e documentos que ajudaram o Ministério da Defesa a construir a Estratégia Nacional de Defesa (END), o Livro Branco da Defesa Nacional e a Lei 12.598 que finalmente criava a Empresa Estratégica de Defesa (EED) e os Produtos Estratégicos de Defesa (PEDs). Durante todo o tempo em que esteve à frente do Departamento, as opiniões de Jairo sempre balizaram ministros e comandantes das Forças Armadas. Nessas ocasiões, ele defendia sempre o conjunto da indústria, nunca ninguém o viu defender os interesses particulares de suas empresas. Isso ele fazia questão de deixar claro.

Industrial bem-sucedido, seu Grupo INBRA chegou a ter a metade de toda produção de veículos blindados, no país que mais vende blindados no mundo; desenvolveu uma divisão aeroespacial que hoje fornece para grandes grupos mundiais, incluindo a Embraer; advogado titular da JC Advogados Associados, consolidou um sistema de auxílio jurídico às famílias militares com uma capilaridade inigualável por todos os cantos do País; esposo, pai e avô querido.

Mas será sempre pela defesa apaixonada da indústria que Jairo será lembrado. Temos todos a obrigação de manter seu ideário vivo, especialmente enquanto ainda não alcançamos as vitórias pelas quais ele lutou. Até o momento não temos uma efetiva aplicação do seu “Buy Brazilian”, pois a Lei das EEDs ainda fomenta dúvidas e necessita esclarecimentos, nunca foi aplicada depois de tantos anos. Tampouco temos a segurança orçamentária de que necessita a indústria para investir, planejar e, muitas vezes, simplesmente sobreviver. Seguimos vendo “compras de oportunidade” que ele tanto criticava por quase sempre desmerecerem a indústria local.

Vamos em frente, a vida segue! Fica a imensa saudade dos inúmeros encontros de sábado pela manhã no escritório de advocacia, dia e hora em que nós dois tínhamos mais tranquilidade para conversar e quando ele iniciava a conversa com um: “e aí, menino, quais são as novidades? ”. Ou da nossa roda de charutos com os amigos e companheiros de batalha, ocasião em que ele ouvia quieto os excitados em volta falando alto até ele começar a opinar e todos ficarem em silêncio para ouvir.

Nas palavras de Santo Agostinho, em “A Morte Não É Nada”, uma frase que acho resumir o espirito de Jairo Cândido: “Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês, eu continuarei sendo” Missão cumprida, Jairão! Bravo Zulu! Saudade… Edu

Nota da Revista: O gráfico publicado pelo autor em seu artigo da edição 149 (pg.25) foi adaptado de Incose Systems Engineering Handbook.

 

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26
jul

A importância de uma boa concepção no ciclo de vida dos projetos

A importância de uma boa concepção no ciclo de vida dos projetos

Artigo escrito por Eduardo Marson Ferreira, presidente da Fundação Ezute, para a Revista Tecnologia & Defesa

Vivemos num mundo complexo marcado por transformações constantes, que força os diferentes tipos de mindset a tomar decisões rápidas e a se adaptar para sobreviver. Essa dinâmica pode ser representada por um acrônimo, incorporado ao jargão da defesa, que traduz este cenário: o “VUCA” – volatility, uncertainty, complexity e ambiguity (volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade). O termo pode ser apropriado para a gestão de projetos, que muitas vezes lida com problemas também voláteis, incertos, complexos e ambíguos.

Neste contexto, as pressões por resultados rápidos e aquisições de tecnologia por oportunidade fazem com que as etapas iniciais do ciclo de vida para a realização de um projeto sejam negligenciadas. E as consequências podem ser nefastas, desde gastos muitas vezes superiores aos originalmente previstos, até a completa inviabilização de um projeto, com a criação dos chamados “elefantes brancos”.

Diante dessa crescente complexidade, tornou-se de vital importância a redução do risco associado às etapas de um projeto. Para tanto, antes de iniciá-lo, faz-se necessária uma análise minuciosa do seu ciclo de vida, que compreende as etapas de concepção, requisitos, arquitetura, desenvolvimento/produção e operação, até a sua retirada de serviço/descarte.

Essa estratégia é crucial no âmbito dos projetos complexos, no qual é necessária a visão sistêmica, materializada na metodologia de systems engineering – que vai muito além da visão técnica. Aplicada numa visão de Sistemas de Sistemas, apresenta-se como a metodologia ideal para a concepção e o desenvolvimento de projetos complexos, pois analisa de forma integrada todos os componentes e partes interessadas (stakeholders). Desta forma, é obtido um resultado global melhor do que aquele que seria obtido ao aplicar a visão tradicional de gestão.

Trata-se de uma abordagem holística, com base em uma visão de alto nível, que permite implementar e analisar sistemas compostos por elementos heterogêneos, complexos e independentes, para que se integrem de forma cooperativa e eficaz. Mas, para que haja êxito, é necessário ter especial foco nas etapas iniciais de concepção e resistir a se ater exclusivamente à etapa de desenvolvimento e produção.

Para ilustrar a importância das etapas iniciais do ciclo de vida dos projetos, gostaria de trazer como referência um estudo elaborado pelo Departamento de Defesa dos EUA (DoD). A partir do histórico de diversos projetos executados, o DoD realizou um estudo dos custos durante o seu ciclo de vida, que é apresentado no gráfico a seguir. Especial atenção foi dada ao momento no qual são tomadas decisões que definem os custos do projeto e também o impacto de correções aplicadas, quando consideradas em diferentes momentos do seu ciclo de vida.

Nesse gráfico, o custo total inclui os custos incorridos desde a sua concepção até a sua retirada de serviço, de forma acumulativa. A etapa de concepção, requisitos e arquitetura, conforme indicado no gráfico, representa 20% do custo acumulado total do projeto.


Ref.: adaptado de Incose Systems Engineering Handbook

O gráfico ainda destaca os momentos nos quais são definidos os custos, representados na curva amarela. Esses momentos representam a definição das tecnologias a serem utilizadas, os meios de integração a outros sistemas, aspectos logísticos, capacidades humanas e de instalações requeridas para a sua entrada em operação, manutenção e evolução ao longo da sua vida útil, até a retirada de serviço. Através do gráfico pode-se observar que somente a etapa de concepção define 70% dos custos do ciclo de vida de um projeto/programa. Outros 25% são definidos nas etapas de requisitos e arquitetura. Assim, 95% dos custos são definidos antes do início da produção. Significativo, não?

Esses aspectos tomam uma dimensão mais importante quando pensamos que uma definição malfeita ou um requisito incorreto irá representar uma correção de rumo do projeto mais adiante. Esses ajustes implicam custos para a correção de um defeito ou erro de especificação do sistema. Tomando como referência um valor simbólico “1” para o custo de correção de um defeito detectado durante a etapa de concepção, esse custo será exponencialmente maior caso o mesmo defeito seja detectado em etapas posteriores do ciclo de vida. Caso esse defeito seja detectado na fase de produção, o custo para a sua correção será da ordem de 500 a 1000 vezes maior do que se fosse detectado na fase de concepção. Isso representa um custo oculto no ciclo de vida de um projeto que pode levá-lo a nunca ser concluído e certamente terá como consequência um custo fi nal muito maior do que o originalmente previsto no orçamento. Portanto, ainda que tenhamos inputs considerados urgentes, devemos ter o devido cuidado com as fases iniciais de defi nição de uma nova solução ou sistema, e trabalharmos com a metodologia de systems engineering para maior efi cácia dos projetos. O aparente N. da R.: Eduardo Marson Ferreira é presidente da Fundação Ezute. custo inicial alto para a defi nição da solução certamente evitará, no decorrer do projeto, custos ocultos que podem levar ao insucesso completo de uma iniciativa.

 

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