Não se trata apenas de construir submarinos. O verdadeiro propósito do Programa de Submarinos da Marinha do Brasil (PROSUB) vai muito além da aquisição de meios navais: está na transferência de tecnologia, na formação de especialistas e na preservação de uma capacidade nacional autônoma, estratégica e sustentável.

A construção de um submarino é, por si só, uma das tarefas mais complexas da engenharia naval. Mas a capacidade de projetar, integrar, operar, manter e evoluir os seus componentes e sistemas é o que realmente define o grau de soberania tecnológica de um país. E é nesse ponto que o PROSUB se torna um projeto de Estado.

Nas últimas décadas, houve um esforço consistente para garantir que o Brasil não fosse apenas comprador de soluções prontas, mas protagonista no desenvolvimento e domínio de tecnologias sensíveis. Em especial, o Sistema de Combate envolve conhecimento altamente especializado em software, integração de sensores e armas, engenharia de sistemas e gestão de obsolescência, tudo isso com aplicação direta na defesa e na capacidade operacional da nossa frota submarina.

Especialistas brasileiros foram formados, tecnologias foram assimiladas, processos foram desenvolvidos. Houve participação efetiva em testes, simulações, integrações e atualizações. Em outras palavras, foi construída uma base de conhecimento que não pode ser descartada ou negligenciada. Ela precisa ser preservada, alimentada e, sobretudo, aplicada de forma contínua.

O maior risco para um projeto como o PROSUB não está nas dificuldades técnicas ou nos ajustes de cronograma. Está na manutenção de conhecimento durante todo o ciclo do submarino, desde a fase da construção até a sua desativação.

É preciso garantir que o conhecimento adquirido pelas equipes que dominam essas tecnologias permaneça ativo. Que o processo de retenção e disseminação do conhecimento ocorra por meio da manutenção e da evolução do Sistema de Combate, na reciclagem e formação de novos profissionais, na gestão de obsolescência, na adaptação de novos equipamentos e na nacionalização de soluções. Que estejam presentes, também, no desenvolvimento do sistema do futuro submarino com propulsão nuclear – uma etapa ainda mais ambiciosa e complexa, que exigirá planejamento, precisão e profundo conhecimento acumulado ao longo dos anos.

Mais do que nunca, o Brasil precisa tratar o conhecimento como um patrimônio estratégico. Preservar competências não é um detalhe operacional. É uma escolha política, econômica e de soberania. É o que fará a diferença entre depender do exterior ou conduzir, com autonomia, os próprios rumos da Defesa Nacional.

O PROSUB não termina com o comissionamento dos submarinos. Ele só se completa quando o país tiver, de forma permanente, a capacidade de manter, aprimorar e inovar seus próprios sistemas críticos. É disso que se trata. É isso que define a verdadeira autonomia.

 

Roberto Lorenzoni – Diretor Presidente da Fundação Ezute

 

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