Engenharia brasileira: hora de reagir

A decadência acelerada da engenharia brasileira nas duas últimas décadas do século passado foi estrutural. Quem fazia projeto de engenharia padeceu com a tentativa das estatais para fazer algo com as próprias mãos para compensar a imobilidade da administração direta. Foi assim que quebraram sucessivamente a Telebrás; a Eletrobrás; os Correios; a Sunamam – que pretendeu sustentar a produção dos estaleiros; a Embratel e a Petroquisa. Engenheiros soçobraram nessa trajetória, pois constituíam a parte mais fraca da cadeia de conhecimento.

A novidade, importante, na fase decadente foi a erupção de uma nova forma de engenharia, que cuida dos “intangíveis” – a engenharia de sistemas, o início indispensável do ciclo completo do conhecimento.Prima da revolução da Informática, começou por garantir presença complementar no desenvolvimento de serviços sofisticados, especialmente nos centros de controle operacional de transporte público sobre trilhos, controle de tráfego aéreo, sistemas de comando e controle para as novas gerações de fragatas da Marinha do Brasil, além de variadas soluções de automação que combinam engenharia de sistemas com ambientes complexos.

Foi uma fase de intensa aplicação de inovação tecnológica. Talvez porque fossem novidades absolutas, pois enveredavam por searas desconhecidas; ou então porque garantiriam o funcionamento de tecnologias recentes, cujos atrativos incluíam a modernização da máquina. As organizações pioneiras desse segmento encontraram o setor público curiosamente disposto a acolhê-las. Enquanto isso, os segmentos já maduros entraram no inverno catatônico do qual ainda não emergiram.Nessa história, projetos importantes de governo, em várias áreas, começaram e foram concluídos sem maiores problemas: os planejamentos aconteciam, estudos de viabilidade, projetos básicos e executivos eram contratados, a licitação publica definia o executor, os recursos eram continuados. Enfim, os empreendimentos aconteciam.Ocorre que a burocratização chegou também ao novo segmento, que agora vive risco de estagnação semelhante ao das especialidades mais tradicionais. A engenharia do conhecimento é refém do modelo adotado ainda no final do século passado, com a Lei 8.666, e acabou algemada num regulamento mais afeto a valores materiais e tangíveis. Seus desafios são de tal complexidade que não é mais possível contratar conhecimento, habilidades, e incertezas, utilizando-se, por exemplo, de pregão. É igualmente inviável contratar conhecimento e incertezas como se fosse alocação de mão de obra, confundindo-se contratação de serviços de limpeza com contratação de conhecimento num campo de incertezas.

Hoje, o País é outro, economicamente outro, com capacidade de financiamento e com ambiente estável para o desenvolvimento de projetos amparados no modelo de orçamentos plurianuais. Mas a herança ficou e se tornou um desafio para o crescimento sustentável. Órgãos de controle, na busca legítima de cumprir o que lhes ordena a legislação, adotam regras tradicionais para objetivos não tradicionais. A desconfiança impera e administradores temem assumir responsabilidades e respostas adequadas às novas realidades em vista do grilhão de regulamentos generalistas.

É hora de reagir e buscar uma relação de confiança entre a sociedade – por meio dos administradores escolhidos pela vontade da maioria – com os fornecedores de serviços e obras. Haverá que se estabelecer o primado da razão. Só assim o País alcançará outro patamar de desenvolvimento, e também ingressará na Sociedade do Conhecimento, como protagonista pleno e vigoroso. E poderá, então, também viver numa era de boas colheitas advindas do mundo tecnológico.

Fonte: Presidente da Fundação Ezute – Tarcísio Takashi Muta