Conhecimento aplicado: chave para a transformação do Brasil

01/06/2016
Por Tarcísio Takashi Muta, presidente da Fundação Ezute

Em 2015, publiquei um artigo na Revista do Clube Naval cujo tema acredito que continua a ser pertinente. Por isso, resgato neste novo texto algumas ideias escritas naquele momento.

Quais são os fatores que influenciam o desenvolvimento econômico de um país? Condições geográficas, demografia, recursos naturais fazem parte da lista. Porém, está cada vez mais evidente que a questão do conhecimento aplicado está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento econômico de qualidade.

A afirmação se confirma ao notarmos a prosperidade de alguns países com geografias pouco generosas e sem grandes recursos naturais. Como eles “chegaram lá”? Certamente pelas capacidades de criar, transformar, combinar e aplicar o conhecimento. E, consequentemente, produzir riquezas que provenham não somente de atividades intensivas em capital ou trabalho, mas também intensivas em conhecimento.

Em nosso país, ainda estamos caminhando a passos lentos para ocupar um enorme espaço neste sentido. Prova disso é o valor agregado da tonelada importada e da exportada (vide gráfico). Apesar de se manter nos últimos 20 anos crescendo de forma equilibrada, com exportações e importações em ritmos semelhantes na maior parte do período, o valor agregado das importações cresceu muito mais do que o das exportações. O motivo reside no estado da matéria que exportamos – em estado mais bruto – versus os produtos importados, itens já transformados e com maior valor agregado.

O café, por exemplo, sai do Brasil como grão e volta da Europa para as prateleiras dos supermercados como café solúvel ou cápsulas de expresso. A mesma sistemática ocorre com a soja, o ferro, o alumínio e tantos outros itens. O que gera a diferença entre o valor agregado de uma commodity e um produto elaborado é a quantidade de conhecimento embutido para transformar a matéria primária em algo de muito mais valor e que pode ser utilizado imediatamente.

A leitura das curvas do gráfico com essa visão, diferentemente da forma tradicional normalmente utilizada, gera um alerta crítico: é necessário romper o ciclo no qual o Brasil vem se fortalecendo como consumidor de conhecimento, o que o levará fatalmente a uma posição de colônia tecnológica. Para tanto, o país deve se reconfigurar na busca de um ciclo virtuoso, com iniciativas que utilizem o conhecimento como ferramenta de trabalho. Mas como criar a ruptura para viabilizar essa transformação?

Neste contexto, o papel do Estado é preponderante, a começar pela implementação das famosas reformas, tão discutidas desde sempre mas sem efetivação, e que vão permitir às empresas desempenharem melhor seus negócios. Alguns estudos apontam também na atuação crucial do governo no sentido de integrar e coordenar políticas públicas, fomentando agências que se tornem focos de criatividade e inovação. Os colunistas Dan Senor e Saul Singer, no livro “Startup Nation: the story of Israel’s economic miracle”, por exemplo, revelam como um país sem recursos naturais consegue criar um ambiente inovador que gerou elevado número de empresas de tecnologia.

Por sua vez, a economista italiana Mariana Mazzucato publicou o excelente “The Entrepreneurial State: debunking public vs. private sector myths”, no qual debate o papel do Estado na promoção da inovação necessária para um crescimento inteligente e sustentável.

A área de defesa é um dos vetores pelos quais os Estados bem-sucedidos promovem a inovação e aumentam a competitividade de suas economias. Nos EUA, a aposta no setor propiciou a criação de inúmeras empresas de ponta, cujos conhecimentos foram aplicados em produtos e serviços voltados para o mercado. Nossa visão é a de que a área de defesa tende a ser melhor sucedida por estar diretamente ligada à aplicação, diferentemente das organizações de governo, que têm a missão de promover o desenvolvimento da inovação e da tecnologia, mas estão posicionadas mais distantes da aplicação. Mas a área de defesa tende a perder essa diferenciação positiva na medida em que o ritmo dos investimentos se fragilize.

No Brasil, uma série de iniciativas tramita sob a designação de Projetos Estratégicos de Defesa, a exemplo do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), que gera um ambiente inovador vital para o desenvolvimento de novos produtos e empresas, pela aplicação do conhecimento. Algumas iniciativas foram comprometidas diante do difícil cenário político-econômico que estamos vivendo, mas elas existem e as Forças Armadas continuam lutando para desenvolvê-las em seus núcleos.

Neste ciclo virtuoso, além do Estado, estão envolvidas também as universidades e as empresas. Essas últimas, agrupadas sob a nomenclatura de Serviços Empresariais Intensivos em Conhecimento, têm o papel de desenvolver, absorver e combinar o conhecimento a ser utilizado. São organizações que se dedicam a ajudar agências governamentais por meio da investigação científica e da análise, desenvolvimento e aquisição de sistemas. Visam reunir experiências e perspectivas do governo, da indústria e da academia, a fim de resolver problemas de maior complexidade, fundamentais para melhorar a produtividade do país.

Vêm dos EUA mais uma vez os exemplos de referência para a própria Fundação Ezute. As organizações MITRE e RAND são entidade privadas sem fins lucrativos e atuam na viabilização do desenvolvimento e da inovação no mundo dos sistemas. O modelo fundacional se ajusta perfeitamente a este propósito, pois essas organizações se situam entre a empresa privada, cujo objetivo é o lucro, e a academia, focada no desenvolvimento de conhecimento nas universidades e centros de pesquisa, ainda com desafios a vencer que penalizam as relações com os agentes do mercado.

Nesse campo sistêmico, os ‘Serviços Empresariais Intensivos em Conhecimento’ respondem, no Brasil, por 3,1% do PIB, enquanto nos países desenvolvidos o percentual está entre 9 e 12%. É um imenso espaço a ser ainda ocupado, e também dependente das tão faladas reformas. O Brasil deve, portanto, organizar-se para a aplicação do conhecimento, aproveitando melhor o potencial criativo do seu povo, a competência de profissionais formados pelas suas escolas e a capacitação de seus centros de pesquisa e das suas organizações produtivas. Assim, poderá transformar a sociedade, elevando-a a um patamar maior de desenvolvimento, aliando prosperidade econômica a uma melhor distribuição de riquezas e sustentabilidade socioambiental.