Em tempos de controle absoluto

Artigo escrito por Eduardo Marson Ferreira, presidente da Fundação Ezute, para a Revista Força Aérea (dezembro\2017)

São José dos Campos, véspera do Natal do ano de 2027. Quando a população se prepara para os festejos em família, todas as luzes da cidade se apagam, os semáforos piscam o amarelo e as estações de telefonia celular emudecem. De repente, as TVs passam a transmitir  um comunicado de um grupo terrorista até então desconhecido solicitando um resgate em moeda virtual para liberar os sistemas. As autoridades atônitas se questionam como tudo isso pôde acontecer.

Dez anos antes, estávamos em pleno “boom” das Parcerias Público-Privadas (PPPs) no Brasil e as vedetes eram os sistemas de iluminação pública nas cidades. Afinal, por respeito ao meio ambiente e ao contribuinte, as velhas lâmpadas alógenas tinham que dar lugar ao LED, mais eficiente e econômico.

Mas o complexo de iluminação pública é talvez um dos sistemas de maior capilaridade dentro de um aglomerado urbano, chegando às portas da maior parte dos cidadãos e cobrindo quase todo o território urbano de um município. Tem uma rede de transmissão de energia acoplada, com cabos indo e vindo em todas as direções, normalmente próximos de onde também transita a rede de fibra ótica. Nada mais lógico, portanto, que usar esse sistema como base para transformar as cidades em Smart Cities (Cidades Inteligentes).

O conceito de Cidades Inteligentes designa projetos urbanísticos que utilizam de maneira intensiva tecnologias da informação (sensores, captores, transmissores, redes…), associadas à capacidade de análise de grande quantidade de dados, voltados a intervir física e socialmente no planejamento do espaço urbano, visando sua sustentabilidade e melhoria da condição de vida de sua população.

Portanto, depende basicamente da utilização maciça de objetos com grande capacidade de gerar e transmitir informações (“Internet das Coisas”, ou IoT em inglês), “Big Data” e de um sistema de gestão e planejamento urbanístico baseado em algoritmos voltados para guiar tomadas de decisões. Com a população urbana mundial em franco crescimento e um avanço tecnológico como nunca experimentado pela humanidade em rapidez e disrupção, nada mais natural que utilizar um pouco dessa tecnologia em prol dessa mesma humanidade.

Afinal, ao substituir as lâmpadas por LED, São José aproveitou para “pendurar” no sistema de câmeras de alta resolução e sensores variados que enviam imagens e dados para um grande centro de comando e controle que as processa e gera dados voltados à melhoria da gestão da cidade. Além de simplesmente captar imagens de crimes acontecendo ao vivo, pela polícia, o sistema passou a reconhecer comportamentos suspeitos nas principais vias de tráfego, como uma motocicleta parada ao lado  do motorista de um veículo no congestionamento ou o mesmo carro passando diversas vezes num determinado ponto. Os ônibus passaram a ter precisão britânica, otimizados que foram pelos algoritmos de demanda e oferta de transporte público construídos a partir de toneladas de gigabytes captadas pelos sensores e analisadas por poderosos softwares. O número de prisões de criminosos aumentou pela implementação de softwares de reconhecimento facial no sistema de vigilância, com interligação aos bancos de dados policiais e judiciários.

Isso só para ilustrar o emaranhado de sistemas de sistemas interligados e interdependentes que foram gerados a partir de uma simples PPP de iluminação pública! Tenho certeza que muita gente se recorda do filme “Controle Absoluto”, ou “Eagle Eye” em inglês, onde uma dupla de jovens é mandada ao redor do mundo numa missão suicida por um computador do sistema de defesa americano descontrolado, que manipula as chamadas telefônicas celulares, os sistemas de transporte público, semáforos, outdoors digitais, redes sociais, guindastes inteligentes e até os sistemas de gerenciamento de imigração do aeroporto. Imaginem se naquele longínquo 2008, ano de lançamento do filme, o carro autônomo (cheio de sensores, processamento e interligação) já fosse a realidade que é hoje…

Obviamente não se trata de discutir aqui a Primeira Lei de Isaac Asimov, onde o robô é programado para jamais atacar o ser humano, como acontece com “Eagle Eye” e o “Hal 9000” de “2001”. Mas sim de chamar a atenção para uma dimensão importantíssima na adoção de “inteligência” e capacidade de aprendizado nos sistemas que é a equivalente adoção de uma segurança cibernética robusta, preocupação que necessita ganhar um degrau ainda maior de relevância na indústria e nos serviços de defesa e segurança.

Quanto mais as cidades serão “smart”, mais suscetíveis ao cenário do início do artigo ficarão. E cada vez mais as cidades serão o campo de batalha privilegiado da Guerra Assimétrica, também na sua nova dimensão: a cibernética.

Como paralelo, os campos de batalha ditos clássicos serão também cada vez mais, “smart”! Os combatentes a pé ou embarcados em aviões e navios são verdadeiras centrais de comando e controle, carregados que são de sensores e processadores de toda ordem, formando redes enormes através da capacidade de se comunicar por vários  meios. Isso é o que se chama hoje Network Centric Warfare (NCW), Guerra Centrada em Rede.

A indústria e os serviços precisam  ombrear esforços com o governo na implementação de uma forte governança da segurança cibernética, nos equipamentos, programas e algoritmos de interpretação e geração de cenários e soluções. Caso contrário, melhor comprar um velho gerador a gasolina para o Natal de 2027…

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