Visão Sistêmica na Indústria de Defesa

Artigo escrito por Eduardo Marson Ferreira para a Revista Força Aérea (abril/2017)

Talvez não tenham ouvido ainda falar do Doomsday Clock, ou Relógio do Juízo Final. Criado em 1947 pelo Comitê de Diretores do Bulletin of the Atomic Scientists da Universidade de Chicago, é uma representação artística de um relógio que retrata o quão próximo estaria a humanidade da total aniquilação por uma guerra nuclear.

Fruto da Guerra Fria, a analogia dos “minutos faltantes” para o apocalipse sempre foi gerida pelo Comitê dos Diretores com base na evolução dos acontecimentos mundiais, sem um critério absoluto ou objetivo, mas com base no sentimento sobre o risco desse apocalipse acontecer efetivamente. Na sua criação foi ajustado em 7 minutos para a meia-noite (hora fatal), e, foi sendo adiantado ou atrasado em função dos movimentos sociais, políticos e tecnológicos através do globo que poderiam influenciar o apertar de botões de um lado ou de outro, até então o risco número um para a raça humana. Tanto era assim que a própria concepção inicial do relógio foi encomendada à esposa de um físico do Projeto Manhattan, como ilustração de um dos Bulletin.

Com o passar dos anos e dos fatos, crise dos mísseis de Cuba, queda do muro de Berlim, idas e vindas dos ponteiros do relógio para mais perto ou mais longe da meia-noite fatídica, a representação do Doomsday Clock foi incorporando outros riscos para a sobrevida da humanidade. Assim, além das armas nucleares, ele passou a representar o aumento ou diminuição de riscos ligados à segurança cibernética, mudanças climáticas, biotecnologia e tecnologias emergentes.

Embora repleto de subjetividades, cada vez que se ajusta o Relógio do Juízo Final as atenções se voltam para Chicago, até pela credibilidade da instituição envolvida. Pois bem, recentemente o Relógio foi protagonista uma vez mais por incorporar uma nova fonte de risco para o Armagedon: o completo desprezo dos dados científicos por parte dos governantes e líderes mundiais, que passou a ladear a proliferação dos artefatos de destruição em massa e os ataques de hackers no tique-taque para a “meia-noite fatal”.

Pelo mundo inteiro assistimos à chegada ao poder de políticos mais interessados em respostas imediatistas ao seu eleitorado. Não se quer imigração, constrói-se muros na fronteira; ao clamor por mais polícia na rua, responde-se com compra de reluzentes viaturas, quiçá doadas por algum fabricante interessado na exposição da marca; um país tem uma balança comercial desequilibrada com tal e qual parceiro, equilibra-se com a venda de itens de defesa…afinal, o líder moderno precisa mostrar força em resposta ao eleitorado… e às favas com os dados objetivos para apoio da decisão!

Não guiar essas decisões por dados de especialistas, por informações oriundas de estudos estruturados e alicerçados em metodologia consagrada, é fatal em qualquer setor, como mostra a Universidade de Chicago. No nosso setor estamos repletos de casos dessa natureza, que desaguam por exemplo em enormes frotas paradas por falta de logística ou em sistemas de comunicação que não falam com o do vizinho, e que tais, onde a ausência de visão sistêmica é uma constante.

Em Defesa e Segurança, não se pode cair na armadilha de tentar responder aos desafios jogando para a torcida. Ao contrário, há que se privilegiar o pensamento sistêmico, uma visão holística do problema enfrentado gerada a partir do uso das ciências físicas, da ciência organizacional e social e a ciência da informação e conhecimento. Ou seja, detectar uma necessidade e entendê-la a partir de dados científicos, compreender o ambiente humano, econômico e organizacional onde está inserida e propor uma solução que leve em conta todos esses aspectos por meio de uma metodologia sólida e reconhecida.

E necessidades não faltam ao segmento de Defesa e Segurança:  do reequipamento à adoção de governança moderna dos processos, do auxílio à tomada de decisão à administração de pessoal, uma vasta gama de temas. Ao país cabe escolher o obscurantismo da Idade Média, quando as ciências ficaram estagnadas pelos dogmas, ou o “boom” experimentado no Renascentismo, principalmente pela adoção mais ampla do método científico. Se queremos que a gestão e a economia evoluam como ciências, temos que tratá-las como ciências e não tomar decisões nestas áreas com base em achismos ou opiniões pessoais.

Apenas para lembrar: o Doomsday Clock marca hoje 11h57min30s, o horário mais próximo da meia-noite desde 1956…

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